Clodoaldo Turcato / Walkan Benkendorf






Clodoaldo Turcato


Do LIVRO POESIAS DA FRUSTRAÇÃO

Samurai


Vou perfumar meu corpo
Para que, ao fincares sua espada
Não sintas o cheiro de meu sangue

Vou vestir minha melhor roupa
Para que vejas o quanto me foi honroso
Cair pelas tuas mãos

Vou me dedicar ao máximo
Para que te certifiques sempre
Que o respeitei e fiz o meu melhor

Usarei todas as minhas armas
Para que sua vitória
Seja ainda mais gloriosa

Vou lutar até o fim, sem descanso
Para que no momento da degola
Tu vida olhe em meus olhos e diga
_ Eis um vitorioso

Assim, só assim, baixarei minha cabeça
Conformado com meu destino

E me entregarei em boas mãos.

 

 São Paulo, o exílio nordestino


“Voltei Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço”

Todas as voltas eu escrevo esta introdução de Capiba, e não canso de ser repetitivo, em ritmo de frevo.

Do tempo que estive em Diadema (não São Paulo, que amo), nunca tinha sentido tanta aversão a um grupo de cidades como as do ABCD paulista. O coração industrial brasileiro exala capital e o mal de suas consequências. O capital brasileiro é mantido basicamente pela mão-de-obra de Nordestinos tristes – o ABCD é um exílio Nordestino. Seguindo para Osasco, Guarulhos, Embu das Artes, Barueri, etc, o panorama é o mesmo: favelas por todo lado, apinhada de trabalhadores nordestinos em sua maioria, morando em barracos mal feitos nas encostas e o centro tomado por casas de luxo dos burgueses.

A cidade de São Paulo deu-se ao luxo de excluir para sua periferia, reservando o suprassumo para descendentes de  italianos, chineses, japoneses, judeus, turcos, franceses, alemães, argentinos, árabes, ingleses, alemães... São Paulo tem seu apartheid causado pelo elevado custo dos imóveis, alugueis e manutenção geral da região central.

O Nordestino só se sente digno em sua terra. Noutros cantos ele se verga. Ao contrario do sulista que onde chega é pra explorar, o Nordestino chega pra ser explorado, implorando por trabalho, um barraco... pão – que brutal diferença de culturas! Não se vê em São Paulo Nordestino falando alto.

A sina do sertanejo sempre fora abandonar sua terra para não morrer de fome. Gerações inteiras de retirantes foram inchando os centros paulistas e fluminenses, criando cidades tomadas de gente que se espreme em pequenos quartos de madeirite. E destas gerações, as famílias perderam parte da característica Nordestina, assumindo as gírias próprias das periferias, com características desqualificadas. Hoje são paulistas que não sabem outra vida que não esta. Aos mais velhos restam saudades e familiares distantes, num cenário muito mal retratado pela imprensa e cinema. O Nordeste nunca foi somente seca, nem local de gente ignorante. O Nordeste sempre foi um manancial de gente ferrenha, artistas medonhos e possibilidades. O capital percebeu isso  e está investindo aqui.

Nunca me senti tão em casa como agora. Feliz por respirar este ar, sentir o calor até as entranhas e o vento acariciando meu rosto;  ver a pele morena das moças desinibidas e os “oxentes” dos rapazes fagueiros.

Tomei fôlego e após o fascínio do carnaval, resolvi me homenagear nesta quarta-feira de ressaca pelo final do frevo e algumas biritas que tomei em comemoração. Aqui me integro, me sinto gente, ergo a cabeça – estou em casa.
 



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Walkan Benkendorf (Correspondente de Indaial SC)




"Ecos do Espirito que pairava sobre a face das águas"


Posso ouvi-lo
No bailar das medusas do oceano
Na fusão nuclear da fornalha das estrelas
No calor do toque dos lábios

Na disciplina do ensino paterno
Na doçura do amor materno
Na explosão da supernova

No desenho da revoada de andorinhas
No raio de luz que corta a escuridão
Na incerteza do mundo atômico

No olhos irrequietos de uma criança
Conhecendo e desbravando o mundo
No momento da concepção
Na explosão da vida

No êxtase dos corpos entrelaçados
Na brisa do vento varrendo as folhas
Em um dia ensolarado de outono

Na organização do caos
Nas forças elementares
Na geometria dos cristais de gelo

Nas variantes do amor
Na sinfonia dos sons da natureza
Na harmonia de uma orquestra afinada
Na expressão da arte

Nas cantigas de roda
No equilíbrio do universo
Nas configurações de energia e matéria
E na natureza morta

Ecos do Espírito que pairava por sobre as águas
Já antes, no vazio absoluto
Ele ecoava pela eternidade
Ecos do Verbo que se fez carne
E habitou entre nós




HOMENAGEM AO NOSSO WALKAN BENKENDOF



 
PARA VOCÊ QUE CHEGOU
EM BREVE TEMPO VOLTOU
E NOS NOSSOS CORAÇÕES
DEIXOU NOS TEXTOS LIDOS
TODA PUREZA DA ESCRITA

DE QUEM SABE AMAR O ÍNDIO
COR VERMELHA TÃO SAGRADA
E SE PREOCUPA COM O NEGRO
ESSA COR ABENÇOADA

SABER QUE TENS EM TEU SANGUE
A FORÇA DOS EMIGRANTES
E NA UBE PAULISTA
DEIXASTES FORÇA BERRANTE

DA PAZ QUE TENS NO AMOR
AO PRÓXIMO QUE SE APRESENTA
A TUA ALMA ACALENTA
A FORÇA QUE VEM DO BEM

E HOJE TE RECONHEÇO
COMO IRMÃO NA CAMINHADA
WALKAN BENKENDOF
EMBORA SENDO ALEMÃO
TENS O SANGUE ITALIANO

TEU SOBRENOME PARECE
SONS DO TOQUE DO PIANO
ÉS AMIGO DO NORDESTE
TERRA DE CABRA DA PESTE
QUE HOJE TE BATIZOU
DE SÓCIO CORRESPONDENTE.




MARGARETT LEITE
 




ANSEIO MAIOR


Dezembro, mês especial
Tempo de magia
A celebração do natal
Que a todos contagia


Chama a atenção
O estranho sentimento
Misto de prazer e sofrimento
Que brota do coração


A alma mais sensível
Eleva-se ao Céu
Sonda o Invisível
E rompe-se o véu
Da incredulidade


Fruto do apelo comercial?
Ou sentimento latente,
Sobrenatural,
Onipresente?


Código gravado
Nas entranhas da alma, gatilho
Do anseio pelo Sagrado
De Pai para filho


Intensa sensação
De que não estamos sós
Percepção
De que existe algo maior que nós


Um buraco programado
Um vácuo no coração
Propositalmente elaborado
Pelo Deus da criação


Prova inefável
De Sua existência
Sentimento inexplicável
Pela ciência


Mensagem codificada
Que se bem examinada
Traduz-se em “olá, estou aqui!”


De que serve tal vácuo programado na alma
Senão para ser preenchido?


Walkan Benkendorf






 O Maquinista


Vida...
Ela segue impiedosamente na locomotiva do tempo
Não retrocede, fixa e firme nos trilhos do destino
Decidida rumo à estação final
Filhos da vida
Passageiros na locomotiva do tempo
Vislumbram das janelas do vagão da humanidade
Paisagens, quadros pulsantes
Ao longo da viagem
A locomotiva se projeta rasgando o universo das possibilidades
Precisa como a flecha do exímio arqueiro
Que busca sem titubear seu alvo
Não se desvia, tenaz como a ave de rapina
Quando captura sua presa
As memórias,
Breves paisagens vistas das janelas do vagão
Quadros que pulsam diante dos olhos da alma
Retratos do bem e do mal
Ah seu eu pudesse frear a locomotiva!
Para apreciar melhor as paisagens
Desfrutar melhor das belezas fugazes
Que se descortinam no meu campo de visão!
Quem dera eu pudesse retroceder a locomotiva
Partir da estação inicial!
E mais lento seguir pelos trilhos do destino
As paisagens mais lúcidas, coloridas, definidas
A locomotiva segue sua viagem
Não vejo ao longe a estação final
Meus olhos ainda não a alcançam
Surge a esperança sem igual
De poder mudar a direção dos trilhos!
Maquinista do destino!
Onde está você?
Procuro-te e não te acho!
Ando a Tua procura em lugares errados?
As paisagens que se descortinam na viagem
Visões breves, vagas, difusas, desconexas
Como enriquecer os quadros da vida?
Maquinista, ajuda-me!
Guia-me para chegar na estação final
E maravilhar os olhos da alma
Com os pulsantes quadros das janelas do vagão de passageiros
Quadros de amor, de plenitude e de paz
Que me façam jubilar e dizer: valeu a viagem!
Maquinista, mais do que tudo
Dá-me tua paz que excede a todo o entendimento
A força para poder cruzar a estação final
A fé de que estarei ao Teu lado
Por toda a eternidade...
Pois só assim a viagem realmente terá sentido...




Sol e Lua


Sol e Lua
Gira girassol
Gira a lua nua
Amanhecer eterno
Anoitecer sereno
Poente
Sol que beija a lua
Em seu ventre
Amanhecer
O sol se estende
Raios múltiplos dominam
O azul celeste
Lua prateada
Enfeita a escuridão
De cinza, negro, vida
Prata
Vida corrente vadia
Sol que nasce cada dia
Lua que surge, noite se aproxima
Vida adormece
Homens trocam
Noite por dia
Dia por noite
Dia após dia
Tudo acontece
Sol e lua...



Walkan Benkendorf



Senhoras seculares


O poeta em sua inspiração
Pisa em terreno instável
Seguindo sua intuição
Vislumbra algo imensurável


Conciliar as senhoras seculares
Que ao longo da existência mundana
Cada qual com seus mártires
Uma santa, outra profana
Reclamam o senhorio das Verdades
Que assombram a mente humana


A Ciência
Senhora sábia e desconfiada
Que com prova e paciência
Rasga a dúvida com fio de espada
Pelo poder da evidência


A outra senhora
Sonda átrio santo
Onde a Ciência não alcança
Tem força no coração em pranto
No medo e na insegurança


O grande Evangelista
Pregou a fé racional
Eis a pista
Para a aliança colossal


Fé, dom de singularidade
Real ponte de ligação
Misto da razão e coração
Capaz de interferir na realidade
Pelo poder da intenção


Mas a fé só tem poder
Com sentimento e convicção
Porque negar então
Da Ciência o saber
Que fundamenta a razão!


Paralelas jornadas
Ciência e Religião
Podem finalizar de mãos dadas
Pois a Ciência em sua razão
Busca decifrar a linguagem
Do Deus da criação!


Portanto digo com veemência
Para vossa compreensão
Que a senhora Ciência
É amiga da Religião!


Bing bang, explosão primordial
Das seculares senhoras, o Senhor
Com Seu toque inicial
Gerou o tudo, com amor!


Na sublime Ignição
À margem das probabilidades
Com divina precisão
Combinou forças elementares
E resolveu a equação


Obra prima da criação
Igual à vida
Matemática que convida
À possível conciliação
Das senhoras seculares




Vestígio da Luz


Neste mundo tenebroso
De dor, ódio e impaciência
Persiste algo majestoso
E digno de ciência
Quando se perde a fé na humanidade
Na bondade, benevolência
Em meio a tanta crueldade
Maldade, concupiscência
Surge a questão atroz
Sobre nossa natureza
Quem somos nós?
E o que dizer em defesa?
Houve nos primórdios a aliança
Com o onipotente Criador?
Filhos a imagem e semelhança
De um Ser de infinito amor?
Existe ainda esperança
Algum sinal, resquício
Vestígio da herança
Do sopro do princípio?
Consciência, moral
Senso de justiça universal
Do errado e do certo
Vestígio descoberto
A prova capital
Que herdamos do sopro inicial
Parte da incorruptível natureza
Do Pai celestial
Por mais que a evitemos
Em voluntária cegueira
Ela influencia o pensar das culturas
Denunciando e abalando as estruturas
Da escuridão que em nossa alma se esgueira
Vestígio da Luz
Que mantem acesa
A esperança e fé
Na experiência humana
 



Walkan Benkendorf
(Correspondente de Indaial Santa Catarina)

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